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ALANAC - Notícias do Setor

Começa a última fase de teste da vacina contra a dengue do Butantã

22 de Fevereiro de 2016

Por: Juliana Diógenes, Ana Fernandes e André Ítalo Rocha

Governo federal assinou contrato com o instituto para financiamento da terceira etapa, com aplicação do imunizante em voluntários.

O governo federal assinou nesta segunda-­feira, 22, o contrato com o Instituto Butantã para financiamento da terceira e última fase da pesquisa clínica para a vacina da dengue. O Ministério da Saúde vai investir R$ 100 milhões nos próximos dois anos para o desenvolvimento do estudo. A vacinação de um grupo de voluntários tem início nesta segunda, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A vacina, que será desenvolvida pelo Butantã em parceria com o National Institutes of Health, nos Estados Unidos, tem potencial para proteger contra os quatro tipos de vírus da dengue com uma dose. Ela será produzida com os vírus vivos, mas geneticamente enfraquecidos, com o objetivo de não provocar a doença.

Presente na cerimônia, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o Brasil passa hoje por um momento "auspicioso" e que dá passos significativos na direção do desenvolvimento de uma vacina contra a dengue, mas que permanece o desafio de combater a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, da febre chikungunya e do vírus zika ­ este último associado ao surto de microcefalia em bebês.

"O Brasil tem fortes institutos de pesquisa, laboratórios, o Butantã sem sombra de dúvida é um deles e dá passo significativo no momento que estamos presenciando hoje", afirmou Dilma. O governo espera que a vacina possa ser pentavalente (ter ação contra os quatro sorotipos da dengue mais a zika) ou que se desenvolva uma vacina contra a zika em paralelo ­ há convênios com os Estados Unidos nesse sentido. Segundo o diretor do Instituto Butantã, Jorge Kalil, estão sendo analisados 29 solicitações de parceria internacionais, a maioria de origem americana.

A presidente anunciou ainda R$ 8,5 milhões para financiar o desenvolvimento de pesquisas do soro contra a zika, que será voltada para grávidas já infectadas pelo vírus com o objetivo de evitar a transmissão ao bebê. Segundo Kalil, o desenvolvimento do soro pode ser “muito mais rápido” pela tradição da instituição em pesquisas sobre soros antivírus e antitoxinas. Nesta terça-feira, 23, Dilma se reunirá com a diretora-­geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margareth Chan.

"Entre o momento atual, em que ainda não temos a vacina, e o momento em que tivermos, temos que tomar uma atitude efetiva para evitar novos casos de crianças com microcefalia, casos de dengue, chikungunya. Temos só um processo para isso que é o extermínio dos criadouros do mosquito, do acúmulo de água limpa ou suja", afirmou Dilma.

A presidente destacou novamente que dois terços dos criadouros do mosquito encontram-­se dentro das residências e enfatizou a campanha do governo federal para que a população dedique 15 minutos por semana para fazer uma faxina em casa e eliminar possíveis focos.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) também participou da cerimônia, na Faculdade de Medicina da USP. O governador cumprimentou a presidente e demais autoridades presentes. Ele chamou o dia de "histórico" e elogiou a ação de "vanguarda" do Instituto Butantã em desenvolver a vacina, lembrando que ela poderá ajudar cerca de 2,5 bilhões de pessoas que habitam países tropicais e subtropicais.

Corrida

A nova fase de testes da vacina do Butantã foi anunciada no mesmo dia que a concorrente Sanofi/Pasteur colocou seu produto em circulação nas Filipinas. Para especialistas, a concorrência ajuda a acelerar o desenvolvimento da vacina nacional, que tem potencial superior. O infectologista Esper Kallas, da USP, aponta que a vacina estrangeira tem limitações que não a tornam ideal para ser aplicada no Brasil: depende de três doses, com seis meses de intervalo; tem eficácia média em torno de 65% (mas com variação por sorotipo); é indicada para pessoas entre 9 e 45 anos; e é cara, em torno de € 20 a dose (cerca de R$ 90).

Testes

Ao todo, 17 mil voluntários de 13 cidades nas cinco regiões do Brasil vão participar dos estudos clínicos que devem durar um ano. A expectativa do Instituto Butantã é disponibilizar a vacina contra a dengue em 2018.

A pesquisa será conduzida em Manaus (AM), Porto Velho (RO), Boa Vista (RR), Aracaju (SE), Recife (PE), Fortaleza (CE), Brasília (DF), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Belo Horizonte (MG), São José do Rio Preto (SP) e Porto Alegre (RS).

Os estudos começam com 1,2 mil voluntários recrutados pelo Hospital das Clínicas. Eles têm entre 2 e 59 anos e residem na capital e na região metropolitana de São Paulo. Nesta segunda, dez pessoas serão vacinadas. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, o cadastro de interessados em participar do estudo passa de dois mil.

Nesta etapa da pesquisa, dois terços dos voluntários serão vacinados e um terço receberá placebo ­ uma substância com as mesmas características da vacina, mas sem o vírus, ou seja, sem efeito. A partir dos exames coletados, a intenção é descobrir se quem foi vacinado ficou protegido e quem tomou placebo contraiu a doença.

Os participantes serão acompanhados por um período de cinco anos, em que será verificada a duração da proteção oferecida pela vacina. O acompanhamento será feito por visitas programadas para coleta de amostras, contatos telefônicos e mensagens por celular.

O HC é um dos 14 centros credenciados pelo Butantã para a realização dos testes. Além do Hospital das Clínicas, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo também foi credenciada pelo Butantã para a realização dos testes na fase 3. A Secretaria Estadual da Saúde informou que o cronograma de vacinação de outros 12 centros será divulgado em breve.

Podem ser voluntários da pesquisa pessoas que estejam saudáveis, que já tiveram ou não dengue e que se enquadrem nas três faixas etárias: 2 a 6 anos, 7 a 17 anos e 18 a 59 anos. Os interessados em participar devem enviar e­-mail para sac@butantan.gov.br.

O governo analisa outros R$ 100 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por meio de um contrato da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Outros R$ 100 milhões podem ser investidos ainda pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES)./ COLABOROU GIOVANA GIRARDI

 

Fonte: O Estado de São Paulo


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