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Falta agilidade para parcerias p├║blico-privadas, diz presidente do IPT

18 de Maio de 2016

Por: Reinaldo José Lopes

Sem maneiras mais criativas e flexíveis de levantar recursos e interagir com a iniciativa privada, a pesquisa brasileira continuará penando para transformar boas ideias científicas em produtos inovadores e lucrativos, diz o engenheiro metalúrgico Fernando José Gomes Landgraf, atual diretor-presidente do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), em São Paulo.

Landgraf comanda o instituto (ligado à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação) desde 2012. Embora negue que seja necessário escolher entre pesquisa básica e aplicada– ou seja, entre a ciência que tenta entender como as coisas funcionam e a que busca aplicações diretas–, ele enxerga mais limitações para fazer o segundo tipo no Brasil.

Para o engenheiro, a falta de agilidade para financiar parcerias público-privadas na área é um dos fatores que limitam o desempenho brasileiro. Ele reconhece a importância do financiamento público para que tecnologias realmente inovadoras surjam, mas aponta também a necessidade de que as pesquisas, em alguma medida, se autofinanciem –a exemplo do IPT, cuja receita atual é, em sua maioria, proveniente de serviços prestados a empresas.

Folha – O governador Geraldo Alckmin irritou a comunidade científica ao criticar as pesquisas financiadas pela Fapesp, afirmando que muitas delas não têm utilidade prática. Como o sr. vê esse dilema entre investimentos na ciência básica e os voltados para a pesquisa aplicada?

Landgraf – É claro que ambas são importantes. Não há como um país ter avanços na pesquisa aplicada sem boa pesquisa básica. Também é verdade que a Fapesp [agência de fomento do Estado de São Paulo] tem tentado estimular a interação entre instituições de pesquisa públicas e as empresas, há algumas iniciativas nesse sentido.

Mas, de maneira geral, a interação com o setor privado e a pesquisa que gera produtos inovadores ainda são modestas, em parte também porque as próprias empresas não buscam essa interação com a intensidade necessária.

Então isso não significaria que as empresas é que precisam criar uma cultura mais ousada sobre esse tema?

O problema é que a maneira como o financiamento dos projetos conjuntos funciona normalmente não favorece isso. Seria interessante achar um modo de trabalhar que facilitasse essas parcerias, coisa que instituições como a Embrapii [Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, organização social ligada ao governo federal] já vêm estimulando ao fazer as coisas de um modo diferente.

O que há de diferente na maneira como a Embrapii atua?

O principal ponto é a velocidade e flexibilidade com que as propostas para o financiamento de projetos são analisadas. Há uma espécie de benefício da dúvida dado pelas entidades financiadoras à parceria entre a instituição de pesquisa e a empresa, de maneira que todo o processo de análise do mérito daquela proposta é mais rápido ­existe um monitoramento constante e rigoroso durante a execução dos recursos, mas não tantos entraves antes.

Outra questão que temos de considerar com cuidado é a maneira como essas parcerias começam. As situações em que os institutos de pesquisa brasileiros procuram uma empresa já com um produto pronto, ou mesmo com um plano claro para chegar a esse produto, são raríssimas. Normalmente o que acontece é o contrário: a empresa procura a instituição de pesquisa com um problema específico, e é a partir daí que soluções às vezes são desenvolvidas e se transformam em produtos.

A impressão é que, desde os anos 1990, tem havido um esforço constante para estimular os pesquisadores brasileiros a se transformarem em empreendedores, mas esse modelo parece ter fracassado. O sr. concorda?

Eu não acho que esse modelo tenha fracassado. A questão é que, naturalmente, são raras as pessoas com vocação para o empreendedorismo. Vejo isso ao dar aulas na Escola Politécnica da USP – poucos dos meus alunos querem virar empresários.

Claro que o ambiente brasileiro de fato não é muito favorável a isso, mas o problema está longe de ser só nosso. A Universidade Harvard e o MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], que ficam do lado um do outro nos EUA, devem formar milhares de alunos todos os anos, num dos locais com o maior índice de inovação tecnológica do mundo. Você sabe quantas empresas são criadas por esses formandos anualmente?

Vou chutar: em torno de 30?

Chutou bem, é mais ou menos isso mesmo –de dez a 30. Além disso, não se pode esquecer o papel crucial das instituições públicas e do incentivo governamental para a inovação, porque eles fazem o investimento de longo prazo para que as ideias realmente inovadoras vinguem.

Mas é claro que é possível pensar em maneiras de obter financiamento para pesquisa sem depender só do Estado. Aqui no IPT, por exemplo, 35% da dotação orçamentária vem do governo paulista, enquanto os outros 65% derivam da venda de serviços para empresas.

Existem críticas ao fato de que a Fapesp possui um patrimônio financeiro próprio, que lhe permite maior estabilidade e autonomia em seus investimentos de pesquisa, mesmo quando a arrecadação cai. Esse modelo deve ser mantido, na sua opinião?

Não acho que seja necessário alterar esse modelo. Mas é importante discutir qual a proporção dos recursos que vai para pesquisa básica e pesquisa aplicada

 

Fonte: Folha de São Paulo


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