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ALANAC - Notícias do Setor

Tratamento alternativo com células-tronco traz riscos

09 de Julho de 2016

Por Gina Kolata

 

O cirurgião ofegou quando abriu seu paciente e viu o que havia em sua coluna. Era uma enorme massa que preenchia toda a parte inferior da coluna vertebral do homem.

“O trecho inteiro estava tomado por tecido ensanguentado, e assim que comecei a retirar partes, passou a sangrar”, disse o doutor John Chi, diretor de Neurocirurgia de Câncer na Coluna Vertebral no Brigham and Women’s Hospital em Boston. “A massa havia aderido a tudo.”

E acrescentou: “Eu nunca tinha visto algo assim”.

Exames mostraram que a massa era feita de células primitivas anormais e que crescia de maneira muito agressiva. Veio então o choque maior: as células não eram de fato do paciente, Jim Gass, e sim de outra pessoa.

Foi descoberto que Gass havia feito terapia com células-tronco em clínicas no México, China e Argentina, em uma tentativa desesperada de se recuperar de um infarto que tivera em 2009. O custo total beirava US$ 300 mil.

Um número crescente de clínicas, muitas vezes em países como a Rússia ou a China, mas também na Europa e outros continentes, afirmam em seus sites que podem tratar e até curar doenças como distrofia muscular, Alzheimer, Parkinson e lesão na coluna vertebral, assim como infartos, injetando nos pacientes células-tronco que, em teoria, podem se transformar em um nervo, um músculo ou outras células e reparar danos causados por uma doença ou lesão.

Relatos de atletas sobre resultados aparentemente miraculosos contribuem para um interesse crescente. Estima-se que dezenas de milhares de pacientes ao redor do mundo tenham recorrido a tais tratamentos e que o setor movimente centenas de milhões de dólares.

As clínicas, que não são regulamentadas, têm sites com depoimentos impressionantes de pacientes e afirmam realizar testes clínicos, dando um verniz de legitimidade a seu trabalho.

Segundo pesquisadores acadêmicos, as células-tronco têm grande potencial, mas podem dividir-se rapidamente e formar tumores, acumulando velozmente mutações como as das células cancerígenas.

Após o infarto, Gass, 66, viveu com autonomia, embora seu braço esquerdo tenha ficado imprestável e a perna esquerda, frágil. Com o corpo estranho em sua coluna, ele está paralisado do pescoço para baixo, exceto pelo braço direito. Seus médicos não sabem como impedir que o tumor continue crescendo.

Especialistas que deploram o “turismo de células-tronco” disseram que esse caso pode fazer diferença. O doutor Jaime Imitola, neurologista e pesquisador de células-tronco na Universidade Estadual de Ohio, comentou que Gass “dá um rosto humano a uma tragédia”. Ao ver o que aconteceu com Gass, pacientes podem dizer: “Ah, Deus, poderia ter sido comigo”.

Dois anos depois de sofrer o infarto, Gass entrou em contato com a empresa Stemedica e foi informado sobre um programa de terapia com células-tronco no Cazaquistão. Ele preferiu não ir até lá e então lhe indicaram uma clínica no México.

Ele passou por várias clínicas e acabou voltando ao México para uma injeção com células provenientes da Rússia. Seis meses depois, passou a andar melhor, mas não durou muito e ele tomou outra injeção. Então, algo estranho aconteceu.

“Comecei a perder a capacidade de andar e caía muito”, relatou Gass.

Nessa época ele estava na Tailândia. Médicos tentaram fazer uma punção lombar, mas disseram a Gass que algo estava errado. Parecia não haver sinal de fluido espinhal.

Ele retornou aos Estados Unidos e foi ao Brigham and Women’s Hospital, onde médicos fizeram um exame de sua coluna e encontraram a massa.

Após localizá-la, no entanto, os médicos se depararam com outro problema: como fazê-la parar de crescer?

No caso de uma infecção, eles poderiam usar antibióticos. Se fosse um câncer, poderiam combatê-lo com medicamentos. Essa massa, porém, era singular.

Para tentar deter seu crescimento, os médicos resolveram usar radiação, o que pareceu desacelerar o crescimento da massa e talvez até reduzi-la. No entanto, Gass fez outro exame e os médicos lhe disseram que a massa voltou a crescer.

Indagado sobre o que gostaria que outros aprendessem com sua experiência, Gass respondeu: “Não confiem em histórias fantasiosas”.

Sua cunhada, Ruth Gass, fez uma observação diferente: “Se algo parece bom demais para ser verdade, é porque é”.

 

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)


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