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ALANAC - Notícias do Setor

Receita complexa demanda soluções locais

18 de Maio de 2016

Por: Vivian Soares

Ambiente institucional confiável, boa infraestrutura, investimento constante em capital humano e incentivos para negócios. Essas são algumas das características compartilhadas pelas dez economias mais inovadoras do mundo, de acordo com o Global Innovation Index (GII), pesquisa anual realizada pelo World Intellectual Property Organization (WIPO) em parceria com as escolas de negócios Samuel Curtis Johnson, da americana Cornell University, e Insead, da França.

A participação nesse grupo de elite ainda é exclusividade de países desenvolvidos, mas a evolução de regiões em desenvolvimento, principalmente na Ásia, vem aumentando a competitividade desses mercados. O Brasil, porém, perdeu posições nos últimos anos e em 2015 ficou no 70º lugar no ranking de 141 países.

O ranking, liderado pela Suíça, que é seguida por Reino Unido e Suécia, demonstra como esses países têm feito a lição de casa na construção de um ambiente de estímulo à inovação. O GII avalia cinco itens que criam terreno para a inovação em um país, chamados de "inputs" ­ instituições, capital humano e pesquisa, infraestrutura, sofisticação de mercado e sofisticação dos negócios; e dois itens que são exemplos reais da cultura inovadora, os "outputs" ­ criação de conhecimento e tecnologia e criatividade.

"Uma característica importante na inovação produzida hoje é que ela é global e cooperativa, e isso é uma excelente notícia para os países em desenvolvimento", afirma Bruno Lanvin, diretor executivo de índices globais do Insead. Outra característica, de acordo com ele, é que as inovações recentes são muito relacionadas a modelos de negócios. "Trata-­se menos de criar novas tecnologias e mais de como usá­-las", explica.

Nesse cenário em transformação, países como a China (29ª no ranking) e Malásia (32º) apresentam performances acima da média, em uma velocidade de evolução que vem surpreendendo. "Os lugares no mundo onde a inovação cresce rapidamente são os países emergentes e de baixa renda", diz Lanvin.

Na China, por exemplo, uma política consistente de investimento em ciência e tecnologia e na qualidade das universidades desde os anos 1970 é um exemplo mencionado pelo ranking. A inovação, porém, nem sempre está ligada à indústria de alta tecnologia ou ao conhecimento de ponta ­ o estudo ressalta os casos bem­-sucedidos de Uganda e Marrocos, que aplicaram novas técnicas em setores agrícolas tradicionais.

"Não há uma receita mágica para o sucesso das políticas de inovação. Países europeus, por exemplo, têm instituições fortes e uma educação de alta qualidade, mas uma performance mais fraca em empreendedorismo, explica Sacha Wunch­-Vincent, economista-­chefe do WIPO e editor do GII.

"Nos Estados Unidos, a capacidade de extrair valor da propriedade intelectual é muito sofisticada, enquanto na Suíça, que lidera o ranking, os clusters de inovação são baseados na confiança mútua entre governos, universidades e empresas, além de uma infraestrutura de qualidade", compara Wunch­-Vincent.

O Brasil ocupa o 70º lugar na edição de 2015 do GII e vem caindo desde 2011, quando atingiu a 47ª posição. O desempenho do país, porém, é acima da média de seus vizinhos latino-americanos e está em segundo lugar entre as economias de renda média na qualidade de inovação, atrás apenas da China.

Alguns dos pontos fortes do país são o capital humano, a qualidade da pesquisa e, em particular, das universidades e de seus trabalhos científicos. Já a infraestrutura e o ambiente de negócios desafiador são problemas apontados pelo ranking há alguns anos.

"O Brasil revela aspectos muito positivos, tais como a sofisticação dos seus negócios e sua indústria de alta tecnologia. Esses itens não são construídos da noite para o dia e dificilmente serão comprometidos pela atual conjuntura", diz Wunsch­-Vincent. "Por outro lado, os desafios de infraestrutura e as dificuldades colocadas à inovação empresarial tornam difícil para o país colher os benefícios da sua capacidade de inovação."

Bruno Lanvin, do Insead, afirma que as economias bem­-sucedidas do ranking transformaram a inovação em uma "prioridade nacional". "Existe uma dimensão cultural muito forte. Os 25 países mais inovadores acreditam em seus jovens e em seu futuro", diz. Outro ponto importante compartilhado pelos líderes do ranking, segundo ele, é a abertura para a diversidade, o que, segundo ele, é um ponto a favor para o Brasil. "Vejo a mistura cultural como uma enorme vantagem no país", afirma.

Os especialistas se dizem confiantes em relação ao potencial de recuperação do Brasil e de sua capacidade de inovação. "O setor privado e o governo brasileiro entendem o valor da inovação. Os fundamentos do Brasil são bons e estão melhorando", afirma Wunch­-Vincent. "A experiência mostra que é importante manter os gastos e a cultura de inovação durante uma instabilidade econômica. Isso ajudará a melhorar a performance do país no futuro."

 

Fonte: Valor Econômico


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