Pesquisar

ALANAC - Notícias do Setor

Aporte do setor privado em P&D deveria ser bem maior que do Estado

18 de Maio de 2016

Por: Françoise Terzian

Os dispêndios nacionais em pesquisa & desenvolvimento (P&D) representam cerca de 1,2% do PIB brasileiro. Esse aporte, um dos principais indicadores para a inovação, poderia ser maior, como ocorre em Israel, o país que mais investe (em torno de 4%) de todas as riquezas do país em P&D. O problema, como explica Wanderley de Souza, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), é mais complexo. Primeiro, é preciso observar a composição da média de 1,2%. Ele explica que 0,7% desse valor é injetado pelo governo, enquanto a iniciativa privada fica com a menor parte.

Mas o que leva as companhias em operação no Brasil a investirem tão pouco? "As empresas deveriam colocar o dobro, e não a metade, em P&D. Na Coreia do Sul, que investe o equivalente a 4% do PIB em P&D, 3,1% vêm do setor privado e somente 0,95% do governo", compara Souza.

O professor Mario Sergio Salerno, titular do departamento de engenharia de produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, concorda e acrescenta que o problema do Brasil é o baixo investimento por parte da indústria, o que acaba levando somente o Estado a aportar por meio da Financiadora de Estudos e Projetos, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Outra explicação para a dificuldade em inovar está no custo alto dos recursos. Muitos países subsidiam esses investimentos. Já o Brasil deveria seguir o modelo de subvenção. Ao tomar dinheiro emprestado, a chamada fiança bancária encarece muito o custo do dinheiro, o que tem levado à busca de outros mecanismos de captação.

Resultado: no quesito inovação, o Brasil vai mal. "Um dos poucos setores de inovação hoje no país, mas com baixa originalidade, é o farmacêutico, mais focado em produzir genéricos e similares após a queda de patentes", diz Souza.

Uma das exceções é a empresa brasileira de biotecnologia Recepta, citada por três grandes especialistas em inovação. Ela tem chamado atenção por se dedicar à pesquisa e ao desenvolvimento de novos fármacos a serem utilizados no tratamento do câncer. O presidente da Finep diz que o Brasil precisa buscar avanços no eterno dilema da conversão de commodities para produtos de alto valor agregado "O Brasil, que exporta café verde, não tem uma única marca de café brasileiro conhecido lá fora."

Apesar de todos os desafios, Souza acredita que as perspectivas podem ser boas desde que haja mais recursos para subvenção, com liberação imediata.

Na área de inovação, Luiz Mello, gerente-­executivo de tecnologia e inovação da Vale, alerta que a inovação no Brasil ainda carece de um ambiente mais favorável com leis mais estáveis e sobretudo com mais recursos não-reembolsáveis. "Há ainda um baixo fluxo de pessoas da academia para a indústria e vice­-versa. Temos que ter mais fluxo entre esses dois universos que têm grande complementariedade. O Brasil ainda tem que vencer as barreiras impostas pela baixa escolaridade. Termos cerca de 17 milhões de analfabetos e um dos mais baixos índices nas avaliações do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) não nos ajudam."

Por incrível que pareça, ele lembra que o Brasil ainda não tem um "Inova Mineração". "Sei que está nos planos e, em breve, deve ser anunciado um programa nesta linha. Nossas oportunidades estão em não tentarmos somente emular os novos tigres asiáticos (Tailândia, Malásia, Indonésia) ou os velhos (Cingapura, Coreia, Japão)."

Para Cesar Bonine, gerente de assuntos regulatórios e propriedade intelectual da Fibria, o acesso aos meios que levam à inovação ainda é um pouco complexo e burocrático no Brasil. Estes incentivos ainda estão abaixo de países mais inovadores, observa. "Um obstáculo ligado à patente de inovação está relacionado ao respeito à propriedade intelectual, como acontecia com a China na década de 90, que copiava tudo. Hoje, no entanto, ela é um dos países que mais depositam patentes no mundo. Algumas empresas brasileiras (até de grande porte), parecem estar com a mentalidade da China antiga. Acham mais fácil copiar do que desenvolver e inovar", alerta.

 

Fonte: Valor Econômico


Associados