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ALANAC - Notícias do Setor

Stents desnecessários só beneficiam indústria e quem dela ganha comissões

03 de Maio de 2016

Por: Cláudia Collucci

Há bem pouco o que comemorar na saúde brasileira em tempos de tantas epidemias, cortes de orçamentos e do leilão em curso nos quadros do Ministério da Saúde.

Mas um fato me alegrou nos últimos dias: o fortalecimento da campanha "Choosing Wisely" (escolhendo com sabedoria) no Brasil, com adesão de ao menos duas sociedades médicas, a de cardiologia e de medicina de família, e apoio da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Para quem não conhece, essa campanha foi iniciada nos Estados Unidos em 2012 e tenta mostrar os riscos do excesso de exames, que pode levar a tratamentos desnecessários, alguns dos quais causando mais danos do que benefícios aos pacientes.

Na oncologia, mesmo com o advento de exames sofisticados e tratamentos modernos e caros, a mortalidade não caiu. Com a mamografia, o diagnóstico de um tipo de câncer de mama (carcinoma ductal in situ), por exemplo, aumentou de 3% para 25% em três décadas. Mas o índice de mortalidade permaneceu inalterado, independentemente do tratamento adotado.

No meio desse caminho, muitas biopsias, cirurgias e tratamentos foram feitos inutilmente, gerando gastos, riscos e estresse desnecessários. O mesmo tem sido observado em certos tumores de próstata e de tireoide.

No caso da tireoide, recentemente vimos um dos tumores ("variante encapsulada folicular do carcinoma papilar da tireoide, ou EFVPTC, na sigla em inglês) deixar de ser câncer. Isso significa que, anualmente, 46 mil pessoas no mundo foram operadas e de fizeram radioterapia desnecessariamente.

Voltando à campanha "Choosing Wisely", o objetivo não é impor nada a ninguém, mas, estimular que as sociedades médicas criem suas listas de procedimentos a serem evitados.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia, por exemplo, tomou uma atitude corajosa: está recomendando que os cardiologistas não coloquem "stents" em pacientes assintomáticos, prática ainda muito comum. Estudos apontam que 50% das intervenções coronárias nos Estados Unidos, por exemplo, são inadequadas ou incertas. E o pior: não previnem infartos.

Quem ganha com os stents e outras próteses desnecessárias? A indústria e os distribuidores dos dispositivos (por razões óbvias), os hospitais (que têm taxas de comercialização sobre eles) e uma parcela de médicos que ganha "comissões" da indústria. As investigações sobre a "máfia das próteses" têm farta documentação sobre isso.

Quem perde? Você, paciente, que vai passar pelo risco de uma cirurgia desnecessária e não terá garantia alguma de que estará protegido. Quem mais perde? Os sistemas de saúde (público e privado) que, ao pagar por procedimentos desnecessários e alimentar "máfias" do setor, jogam no ralo recursos que poderiam estar sendo investidos onde realmente são necessários.

Ninguém aqui é contra exames ou tratamentos, é preciso deixar bem claro. A maioria das decisões médicas se baseia em exames e muitos deles são fundamentais na assistência. Mas não se pode negar o abuso existente hoje (há muita literatura documentando isso) e a necessidade de mais critérios nessas indicações. A meta deve ser a busca por diagnósticos e tratamentos que realmente tenham impacto na qualidade/expectativa de vida das pessoas.

Porém, só a campanha não basta para mudar essa cultura perniciosa do excesso de diagnósticos. Com as consultas cada vez mais rápidas (os planos pagam mal, e o médico tenta ganhar na quantidade de pacientes atendidos), o caminho natural acaba sendo priorizar pedidos de exames (e o paciente adora isso) em detrimento de uma anamnese bem-­feita.

A mudança passa por novos modelos de remuneração que valorizem a qualidade da assistência, e não a quantidade de procedimentos realizados. Tem muita gente discutindo isso há muito tempo. Difícil é fazer com que os "players" deixem de lado interesses corporativos e pensem no bem comum.

 

Fonte: Folha de São Paulo


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