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ALANAC - Notícias do Setor

Necessidade e tipo de estímulo ao setor dividem opiniões

02 de Maio de 2016

A maior parte dos economistas concorda que a indústria tem um papel fundamental para o crescimento brasileiro. Qual a indústria e se a chamada "reindustrialização" deve ser ou não um foco da política econômica, e como essa eventual política difere do que foi feito nos últimos anos, contudo, dividem opiniões. O Valor formulou a três economistas ­ Samuel Pessoa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-­FGV), Jorge Arbache, da Universidade de Brasília, e Nelson Marconi, da Escola de Economia de São Paulo da fundação Getúlio Vargas (EESP­FGV), três perguntas sobre a questão. As respostas foram por escrito, via e-­mail.

Valor: A reindustrialização deve estar no foco da política econômica nos próximos meses/ano? Por quê?

Jorge Arbache: Sim, porque fartas evidências empíricas mostram que indústria é a atividade que mais pode estimular inovação e desenvolvimento tecnológico, inclusive em outros setores, como os serviços. Além disto, a indústria cria oportunidades de convergência de produtividade entre países, fomenta cadeias de produção mais longas, recolhe mais impostos e é a mais promissora ponta de lança de participação de países emergentes em cadeias globais de valor. Porém, as evidências também mostram que na era da globalização e do conhecimento, o que importa é o que e o como se produzem as coisas, a capacidade de criar, de produzir melhor, de agregar valor e apresentar soluções novas e eficientes para demandas novas e antigas, com preocupação ambiental. O que importa não é ter indústria, mas que indústria se tem; e não é o participar, mas o como participar da economia global. Por isto, a agenda de custos está deixando de ser o principal determinante da competitividade industrial. A reindustrialização que precisamos e devemos fazer requer esforços novos e muito mais complexos.

Nelson Marconi: A reindustrialização é fundamental para a retomada consistente e prolongada do crescimento da economia brasileira. É na indústria que ocorrem as inovações que se espalham por toda a economia e vão estimular a produtividade dos diversos setores; os principais impactos ao longo da cadeia produtiva também são originados na indústria, que oferta, juntamente com os chamados serviços modernos, mais empregos de melhor qualidade e remuneração na economia. Esses serviços modernos, por sua vez, dependem da indústria para progredir. Não há produção de design, logística, consultoria, moda, softwares desassociada da produção de outros bens aos quais estes serviços se destinam. Quando a estrutura produtiva caminha na direção da indústria com maior conteúdo tecnológico e dos serviços modernos a ela acoplados, ocorre o que intitulamos sofisticação produtiva ­ o predomínio de setores que geram maior valor adicionado per capita e, logo, salários mais elevados. Essa mudança estrutural é essencial para o desenvolvimento econômico de um país.

Samuel Pessoa: Dois fatores explicam as enormes dificuldades que acometem a indústria de transformação. O primeiro deve­-se à baixa poupança doméstica. Baixa poupança doméstica significa que em geral nossa economia apresenta déficit externo ou seja, importa poupança do resto do mundo. Como somos grandes produtores de commodities, tantos as agrícolas quanto as minerais, a importação de poupança ocorre na forma de bens manufaturados, pois em geral os serviços não são comercializados internacionalmente. Ou seja, nossa baixa poupança faz com que absorvamos poupança externa na forma de bens manufaturados, o que eleva a oferta doméstica desses bens, contribuindo para manter seus preços mais baixos do que seriam se a poupança doméstica fosse maior. Adicionalmente, a baixa poupança pressiona os juros domésticos, o que eleva o custo da indústria de transformação por ser um setor intensivo em capital. O segundo fator que contribui para reduzir a competitividade da indústria de transformação é o enorme custo de observância da legislação tributária. Como as cadeias produtivas do setor são mais longas, as distorções promovidas pela complexidade dos impostos se acumulam ao longo das etapas. Assim, enquanto não construirmos um equilíbrio macroeconômico com juros reais normais ­ que depende de solução definitiva para a baixíssima poupança do setor público ­ e enquanto convivermos com a estrutura absolutamente disfuncional de impostos indiretos, a indústria terá dificuldades.

Valor: A reindustrialização virá apenas pelo conserto da política econômica ou demanda medidas? E no que elas diferem do que foi feito nos últimos anos?

Marconi: O reequilíbrio dos principais preços macroeconômicos é o requisito primordial para a retomada do crescimento da indústria. Juros baixos, câmbio competitivo e salários crescendo em compasso com a produtividade são as medidas mais importantes para possibilitar a recomposição das margens de lucro da indústria de transformação, que são inferiores às de outros setores na economia brasileira e foram reduzidas nos últimos anos. Essas medidas deveriam ser acompanhadas de uma estratégia de crescimento orientada às exportações de manufaturados, que inclua acordos comerciais, melhoria da infraestrutura através de concessões, acesso a linhas de financiamento específicas, criação de incentivos para pesquisadores de universidades públicas atuarem junto ao setor privado e promoção da articulação entre empresários para montagem de redes de atendimento pós venda no exterior.

 

Arbache: Infraestrutura e políticas horizontais de modernização regulatória, tributária e burocrática são fundamentais. Contudo, elas, sozinhas, não nos levarão muito longe nos dias de hoje. Se deixarmos o mercado agir à sua conta, provavelmente seguiremos o caminho de maior especialização em commodities e semimanufaturados de baixa agregação de valor. Precisamos e devemos perseguir uma agenda que foque no conhecimento, sob pena de ficarmos de fora de toda uma profunda transformação por que passa a economia mundial associada à agregação de valor. Há muito que podemos fazer, sem tirar o pé do chão. A industrialização das nossas vantagens comparativas estáticas e dinâmicas abre toda uma agenda de atividades com alto potencial de externalidades positivas em termos de conhecimento e de desenvolvimento tecnológico ­ pense no imenso potencial associado à agricultura, mineração, biodiversidade, florestas, águas superprofundas, energias renováveis, saúde e indústria aeroespacial. Para tanto, precisaremos desenvolver políticas setoriais coordenadas e baseadas em resultados que encorajem a inovação, a tecnologia, a agregação de valor e a maior integração à economia internacional. Claro, trata­-se de uma nova geração de políticas bem diferente da que estamos acostumados por aqui. Note que as políticas industriais voltaram à tona no mundo ­ afinal, o que mais seriam os esforços americanos em novas energias, nanotecnologia, manufatura avançada e o TransPacific Partnership (TPP)?

Pessoa: Nossa experiência nos últimos anos foi que a adoção de medidas microeconômicas para compensar os custos acabou gerando problemas macroeconômicos que acabaram por agravar os problemas da indústria. Ou seja, penso não haver atalhos para tentar insular a indústria dos problemas estruturais que afetam a sua competitividade. A política de desenvolvimento industrial não deve ter como foco compensar essas distorções, mas estimular o desenvolvimento de atividades com conteúdo tecnológico novo ao menos para o país. Essas atividades têm a característica que o custo para o empresário de inovar é maior do que o custo para a sociedade. O motivo é que se a atividade der errado, o prejuízo é do empresário, mas se ela der certo, outros empresários imitarão, sem incorrer nos custos iniciais de desenvolvimento e adaptação da atividade. Desnecessário dizer que as empresas campeãs nacionais, fortemente incentivadas pelo BNDES há poucos anos, encontram-­se em setores com tecnologia tradicional e totalmente adaptados à realidade brasileira. A política não se justificava.

Valor: A capacidade ociosa é suficiente para a retomada da indústria ou há um problema de obsolescência pela queda do investimento?

Pessoa: A capacidade ociosa é suficiente para a recuperação. Os incentivos corretos estimularão escolhas de modernização dos empresários compatíveis com cada um dos negócios. As políticas padrão ­ como o apoio do BNDES, que têm de ser muito menores do que foram nos últimos anos ­ são suficientes.

Arbache: A queda dos investimentos reduz o estoque de capital por trabalhador, e, consequentemente, a produtividade e a competitividade. A ociosidade ajudará no primeiro momento, notadamente via exportações. Porém, produzir "mais do mesmo" não nos levará muito longe. É preciso mais ambição.

Marconi: A queda do investimento nos últimos anos é consequência da perda de rentabilidade do setor industrial, mas também termina alimentando a desindustrialização ao inibir o crescimento da produtividade. A capacidade ociosa ajudará a recuperar setores que demandam menor conteúdo tecnológico ou que já possuam uma estratégia mais orientada às exportações, como têxteis, calçados, produtos de madeira, alimentos, celulose, metalurgia, automóveis e aviões. Porém, para os setores que demandam maior conteúdo tecnológico e que se encontram mais orientados ao mercado interno, como químicos, eletrônicos, bens de capital e material elétrico, a recuperação dependerá de investimentos que os possibilitem competir no mercado externo.

 

Fonte: Valor Econômico


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