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Argentina busca o setor privado para retomar inovação

02 de Maio de 2016

Por: Marli Olmos

Há até 30 anos a ciência era motivo de orgulho para a Argentina. Três dos cinco argentinos que ganharam o Prêmio Nobel eram cientistas. Mas as sucessivas crises econômicas desestimularam milhares de cientistas a permanecer no país, principalmente na recessão de 2001. O quadro só começou a mudar oito anos atrás, graças aos recursos injetados pelo Poder Público e a nomeação de um ministro que conseguiu repatriar até agora 1.269 cientistas que haviam deixado o país.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Lino Barañao, tem algo de muito especial em relação aos demais integrantes do governo do presidente Mauricio Macri. Ele foi o único do governo kirchnerista mantido na nova gestão. Respeitado no país, Barañao é um exemplo de que, quando bem conduzidas, ciência e tecnologia superam mudanças de ideologia política, como foi a transição do governo de esquerda de Cristina Kirchner para um mais conservador.

No cargo desde que o ministério foi criado, na primeira gestão de Cristina, em 2007, Barañao achou por bem pedir à ex­-presidente autorização para aceitar o convite de Macri. Embora o estilo de gestão na Casa Rosada tenha mudado drasticamente, a linha de trabalho em Ciência e Tecnologia foi mantida intacta. Na primeira conversa, Macri pouco disse ao ministro mantido no cargo. Simplesmente ouviu dele os planos para inserir a ciência e a tecnologia como ferramentas de desenvolvimento econômico.

A trajetória de Barañao explica por que Macri o manteve no cargo. Com o ministério sob seu comando, a Argentina começou a ganhar espaço em publicações e premiações da comunidade científica internacional. Mas os maiores elogios vêm bem-­sucedida iniciativa de repatriar cientistas que haviam saído do país.

A estratégia para atrair de volta os desiludidos foi criar um programa público­-privado por meio do qual o cientista volta com trabalho garantido. "Abrimos vagas para os cientistas que estão em outros países quando uma entidade, uma empresa ou universidade nos procuram; por isso todos já vêm com contrato", diz Barañao. O ministério também oferece financiamento para os salários iniciais desses profissionais caso seja necessário.

"Tínhamos a fama de ser exportadores de talentos", diz o analista Mauricio Claveri, coordenador de projetos da consultoria Abeceb. O impulso para reverter o processo, destaca, veio com a decisão do governo anterior de valorizar a ciência e tecnologia por meio da injeção de recursos públicos. "A lógica de manter o ministro vem da consagração da sua gestão e das pesquisas bem­-sucedidas", afirma Claveri.

Na área de tecnologia, o setor agrícola experimentou algumas invenções notáveis. Tradicionalmente, as framboesas que crescem na Patagônia argentina, por exemplo, são colhidas pelas mãos de homens e mulheres. E ninguém poderia imaginar diferente por ser um fruto muito delicado. Mas não há nada que a tecnologia não resolva. Com financiamento público, foi desenvolvido o protótipo de uma colheitadeira mecânica de frutas finas, que delicadamente tira das plantas não só framboesas como cerejas e amoras maduras.

A máquina testada pelos produtores de Neuquén serve de exemplo do quanto a tecnologia pode ajudar naquilo que um país tem de bom. Barañao sente, porém, que falta à Argentina mais empresas com base tecnológica. "O que caracteriza as nações desenvolvidas não são os recursos naturais, mas a economia baseada no conhecimento", diz.

O orçamento do Ministério equivale a 0,65% do Produto Interno Bruto. Insuficiente para tudo o que Barañao gostaria de fazer. Mas ele não pretende bater à porta da Casa Rosada para pedir mais dinheiro. O cientista de fala mansa, que claramente gosta mais de pensar do que de falar, lança um olhar distante ao contar sobre o sonho de que seu pais atraia mais empresas voltadas à tecnologia. "Aspiramos um aumento da participação de recursos privados no setor", diz.

Barañao começou a se interessar pela ciência aos oito anos de idade, quando devorava obras do escritor francês Julio Verne. O exemplo de um tio químico também o ajudou a perseguir a vocação. Para o ministro, ser cientista é "de alguma forma, seguir com a curiosidade infantil de entender como funcionam as coisas".

Doutor em química pela Universidade de Buenos Aires, Barañao fez uma longa carreira como pesquisador na Argentina, EUA e Alemanha. Especialista em biologia celular, ganhou fama em 2002 com um trabalho de clonagem de novilha para a produção de leite com hormônio de crescimento.

Há poucos meses Barañao deixou o centro de Buenos Aires, onde as repartições públicas se aglomeram, para trabalhar em espaço mais familiar. O ministério mudou­-se para um imenso polo tecnológico no bairro de Palermo. Obra de Cristina Kirchner, o polo foi erguido em antigo edifício, onde no passado funcionava uma tradicional vinícola. Além do Ministério, o espaço abriga laboratórios e centros de pesquisa que mantém convênio com instituições internacionais.

Se depender da vontade do ministro, a Ciência e a Tecnologia podem funcionar de forma integrada no Mercosul. "Temos que começar a obter massa crítica somando as competências e recursos da região. Isso ainda não ocorreu porque as discussões não envolvem iniciativas práticas. É preciso estabelecer vínculos entre os pesquisadores para que isso se transforme, no futuro, em políticas públicas".

Ele lembra que a união do Mercosul compensaria os fracos orçamentos públicos destinados ao setor pelos países latino­-americanos. "Uma empresa como IBM tem mais pesquisadores de software do que a Argentina tem somando todas as áreas".

Barañao defende, ainda, o setor como futura bandeira política. "O conhecimento passou a ser recurso fundamental. Os políticos deste século precisam entender por onde passa a tecnologia, qual seu impacto, para o bem e para o mal; e saber usá­-la para o desenvolvimento econômico e social de seus países".

 

Fonte: Valor Econômico


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