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ALANAC - Notícias do Setor

Zika sequestra proteína de célula-tronco

31 de Março de 2016

Por: Fábio de Castro

Um grupo de cientistas americanos descobriu que a aparente atração do vírus zika por neurônios em formação é resultado de sua capacidade para sequestrar uma proteína encontrada na superfície das células-tronco neurais, usando-a como porta de entrada para a infecção. Segundo os autores, danos nesse tipo de células são coerentes com vários dos sintomas associados à zika nos fetos em desenvolvimento - incluindo a microcefalia.

O estudo, cujos resultados foram publicado nesta quarta-feira, 30, na revista Cell Stem Cell, foi liderado por cientistas da Universidade da Califórnia em São Francisco (Estados Unidos).

A proteína AXL - um receptor normalmente envolvido na divisão celular - é altamente abundante na superfície das células-tronco neurais que dão origem aos tecidos do córtex, mas não em neurônios de um cérebro já desenvolvido, segundo o artigo. Essas células-tronco capazes de produzir a proteína AXL, dizem os autores, só estão presentes no organismo durante o segundo trimestre e gravidez.

Os pesquisadores, no entanto, afirmam que a descoberta é um passo importante, mas ainda não fornece uma explicação conclusiva sobre como a zika seria capaz de causar a microcefalia.

"Ainda que não seja de maneira alguma uma explicação completa, acreditamos que a expressão de AXL por esse tipo de célula é uma importante pista para descobrirmos como o vírus zika é capaz de produzir casos tão devastadores de microcefalia. Os resultados se encaixam perfeitamente nas evidências disponíveis", disse o autor principal do estudo, Arnold Kriegstein, diretor do Centro de Pesquisa em Medicina de Regeneração Células-Tronco Eli and Edythe Broad.

"O AXL é o único receptor que tem sido associado à infecção por zika, por isso agora precisamos passar a fase da 'culpa por associação' e demonstrar que bloquear esse receptor específico pode prevenir a infecção", Kriegstein.

Assim que começou a epidemia atual de zika, segundo Kriegstein, os primeiros autores do estudo, Tomasz Nowakowski e Alex Pollen, perceberam, a partir de estudos anteriores, que vírus semelhantes ao da zika - como o da dengue - parecem usar a proteína AXL como ponto de entrada para a infecção.

Eles então fizeram uma série de análises de expressão genética para observar a presença do receptor AXL em diferentes tipos de células em cérebros de ratos, de furões, de organoides derivados de células-tronco cerebrais humanas e de tecidos humanos em desenvolvimento.

Todos os modelos mostraram que o AXL era expresso por células da glia radial - aquelas que dão origem a uma variedade de células, como neurônios e astrócitos, que ajudam a construir o córtex cerebral.

Os cientistas então utilizaram rastreadores de anticorpos em tecidos em desenvolvimento e organoides para descobrir onde é maior a probabilidade de encontrar o receptor AXL nas células-tronco neurais. Eles descobriram que o AXL se agrega em torno de áreas onde as células cerebrais em formação entram em contato com o fluido cérebro-espinhal e com os vasos sanguíneos. Essa posição única daria a um vírus como o zika um acesso fácil a um conjunto vulnerável de células hospedeiras.

"Nós ainda não entendemos por que o zika, em particular, é tão virulento no desenvolvimento cerebral. Talvez esse vírus viaje mais facilmente através da barreira da placenta, ou que ele entre nas células mais rapidamente que os vírus causadores de infecções semelhantes", afirmou Kriegstein.

Enquanto esperam a confirmação de que o zika usa o receptor AXL para penetrar nas células-tronco, o grupo de Kriegstein trabalhará para investigar se essa proteína pode ser explorada para propósitos terapêuticos. Como o AXL é importante para a proliferação das células-tronco neurais, é improvável que bloquear esse receptor no cérebro dos fetos seja uma alternativa viável.

"Mas talvez se possa encontrar uma maneira de tratar mulheres sob risco com um inibidor de AXL, antes de mais nada, para impedir que o zika chegue no cérebro dos fetos em desenvolvimento", disse o cientista.

 

Fonte: O Estado de São Paulo.


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