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ALANAC - Notícias do Setor

‘Pílula do câncer’ é reprovada em primeiro teste oficial

21 de Março de 2016

Por: Reinaldo José Lopes

Não foram animadores os primeiros resultados de testes independentes feitos com a chamada "pílula do câncer, desenvolvida por pesquisadores da USP de São Carlos.

Segundo as análises, ela tem baixo grau de pureza e pouco ou nenhum efeito sobre células tumorais, com desempenho muito inferior ao de drogas anticâncer já disponíveis há décadas.

Os resultados foram divulgados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, que investiu em testes da "pílula do câncer" após pressão de pacientes que relatavam melhora após usar a droga.

O entusiasmo popular com a substância fez com que a Câmara dos Deputados aprovasse projeto que libera a produção, a venda e o uso da pílula. Ainda falta o aval do Senado para a legislação.

Desde os anos 1980, um grupo de pesquisadores liderado pelo químico Gilberto Chierice, hoje professor aposentado da USP, estuda a fosfoetanolamina e suas possíveis propriedades anticâncer.

Chierice afirma que ele e seus colegas descobriram como produzir a substância (conhecida como "fosfo") com "altíssimo grau de pureza". Alguns estudos publicados pelo grupo indicam que a fosfoetanolamina seria capaz de matar múltiplos tipos de células cancerosas.

Só 30%

Não é, porém, o que sugerem os testes feitos a pedidos do ministério. Análises iniciais da Unicamp mostraram, por exemplo, que as pílulas possuem apenas cerca de 30% de fosfoetanolamina propriamente dita em sua composição – o resto são outras moléculas, algumas sem relação direta com o suposto princípio ativo da droga.

Embora a embalagem informasse que as pílulas tinham 500 mg, elas pesavam, em média, cerca de 300 mg. Dois testes da pílula, avaliando sua ação com cinco tipos de células de câncer, sugerem que ela pode ser quase inócua contra tumores.

Num deles, foi preciso usar concentrações de "fosfo" milhares de vezes maiores que as de drogas anticâncer convencionais para reduzir a proliferação das células tumorais. Em outro, houve um efeito anticâncer, de fato –só que causado pela monoetanolamina, um dos componentes da pílula. Nesse caso, também foi necessária uma concentração altíssima da substância para que o efeito aparecesse. Esses testes foram realizados pela Universidade Federal do Ceará e pelo Centro de Inovação e Ensaios Pré­-Clínicos, em Santa Catarina.

"Em geral, se uma substância não funciona in vitro [em tubo de ensaio], nesses modelos mais simples de células, dificilmente ela vai funcionar in vivo [no organismo]", diz o bioquímico Guilherme Baldo, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), que comentou os resultados a pedido da Folha.

Além disso, a necessidade de usar altas doses da "fosfo" ou das moléculas associadas a ela para que algum efeito se torne detectável sugere que seria impraticável administrar quantidades similares da substância aos pacientes.

A "pílula do câncer" só teve dois resultados favoráveis nessa primeira bateria de testes. Em ratos de laboratório que receberam doses várias vezes superiores às recomendadas para humanos, não houve efeitos tóxicos. Além disso, as bactérias que entraram em contato com a "fosfo" não tiveram o DNA alterado.

Agora, os próximos testes deverão investigar o que acontece quando a droga é administrada a animais com tumores em seu organismo.

Para Jarbas Barbosa, presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a variabilidade na composição do produto já era esperada por ele ser feito fora de um espaço adequado.

Ele ressalta que os resultados são preliminares, mas diz que ninguém deve abandonar um tratamento convencional para tomar um medicamento sem eficácia comprovada.

"Não se pode dizer que algo funciona só com base em relatos de paciente. Em nenhum lugar do mundo se admite isso como prova", afirma. "Mas também não podemos prejulgar. São primeiros resultados, temos que esperar os próximos."

Procurado pela Folha, Gilberto Chierice disse que não iria comentar os testes.

Colaborou NATÁLIA CANCIAN, de Brasília

PÍLULA INEFICAZ?

Como foi o teste preliminar que reprovou a fosfoetanolamina contra o câncer.

A PÍLULA DO CÂNCER

É uma substância de baixo custo, à base de fosfoetanolamina, criada na USP de São Carlos após pesquisas do professor Gilberto Chierice. Começou a ser distribuída a pacientes na década de 1990, apesar da falta de estudos e de aprovação da Anvisa

DECISÕES JUDICIAIS

A produção e o fornecimento da pílula foram interrompidos em 2014, após a aposentadoria de Chierice. Pacientes recorreram aos tribunais para conseguir a substância, o que levou o Ministério da Saúde e o Governo de SP a investir em estudos

NO CONGRESSO

Na sexta (18), a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que permite a produção, importação, distribuição e prescrição concomitantemente aos estudos, ainda na fase pré­clínica (antes de testar em humanos). Se aprovado no Senado, texto segue para sanção presidencial

RESULTADOS DOS ESTUDOS PRÉ­-CLÍNICOS

MISTURA DE COMPOSTOS

Análise em laboratório da Unicamp revelou que as pílulas continham diversos componentes além da 'fosfo'

NÃO PARECE SER TÓXICA

Avaliação feita pelo Cienp, em Santa Catarina, forneceu doses elevadas do produto a ratos de laboratório saudáveis. Não houve alterações de saúde ou de comportamento

ATIVIDADE FRACA 1

O Cienp testou a pílula contra células de câncer de pâncreas e de pele. Só um de seus componentes deu resultado, mas com potência mil vezes menor do que drogas já conhecidas

ATIVIDADE FRACA 2

A Universidade Federal do Ceará testou a 'fosfo' nas células de câncer de cólon, próstata e cérebro. Ela só afeta as células tumorais em concentrações mais de 5.000 vezes superiores às de um quimioterápico

SEM MUTAÇÕES

O Cienp mostrou que a pílula não causa alterações no DNA das bactérias Salmonella typhimurium. Isso é importante porque essas próprias alterações poderiam levar a um câncer

 

Fonte: Folha de São Paulo


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