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ALANAC - Notícias do Setor

Colômbia prevê até 600 bebês microcéfalos

05 de Março de 2016

Por: Juliana Gragnani

Da notícia de que na Colômbia havia milhares de grávidas infectadas pelo vírus zika e zero casos de microcefalia, nasceram dúvidas. "É um vírus estranhamente seletivo", "um grande escândalo", "fomos enganados" comentou-se nas redes sociais.

Mas o vice-ministro de Saúde da Colômbia, Fernando Ruiz Gómez, afirma que, a partir das estatísticas brasileiras, o país prevê o nascimento de 450 a 600 bebês com microcefalia em 2016.

Nesta sexta (4), reportagem da revista "Nature" revelou que pesquisadores na Colômbia encontraram o primeiro caso de microcefalia ligada a zika. O governo disse não ter conhecimento sobre o caso.

"É alta a probabilidade de que haverá casos de microcefalia na Colômbia. Há um momento que chamamos de silêncio epidemiológico e, no momento seguinte, casos podem disparar. Devemos ter um número expressivo deles", disse Gómez, em entrevista concedida por telefone antes da notícia da "Nature".

Carlos Brito, diretor do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, vinculada à Fiocruz em Recife, diz que é preciso observar a sequência de acontecimentos após a entrada do vírus em uma região. É a partir do pico da epidemia, quase que simultaneamente, que se observa aumento de casos de Guillain-Barré, diz Brito. Cerca de seis a sete meses depois, será possível observar o pico de casos de microcefalia.

A Colômbia vive agora o pico da epidemia do zika. "Como estão monitorando e não foram pegos de surpresa como o Brasil, é possível que percebam mais precocemente os primeiros casos", diz Brito.

Na país, foram notificados 42.706 casos de zika. Destes, 1.612 foram confirmados a partir de exames laboratoriais. O número de casos de gestantes supostamente com zika é de 7.653, dos quais 522 foram confirmados a partir de exames.

Do total de gestantes, cerca de 10% tiveram bebês. Há uma semana, um "provável" caso de microcefalia ligado ao zika foi registrado no sudoeste da Colômbia. Uma mulher de 18 anos interrompeu a gestação de sete meses após a confirmação da presença do vírus no líquido amniótico e de anomalia congênita no feto.

"Infelizmente, não recolheram os restos e, portanto, não temos confirmação da ligação do zika com a microcefalia", explica Gómez.

As leis colombianas autorizam o aborto quando a gravidez é resultado de um estupro, se o bebê sofre de uma doença congênita ou se põe em risco a saúde da mãe. Gómez inclui aí a "saúde psicológica" da mulher e diz que, no caso das gestações com zika, "o aborto será definido entre médico e paciente, sem recomendações do ministério". "Não podemos violar a intimidade da mulher." O procedimento é oferecido pelo sistema de saúde da Colômbia.

O país identificou, também, 97 casos de síndrome de Guillain-Barré relacionados ao vírus zika.

DENOMINADOR

O Ministério da Saúde brasileiro já dá como certa a ligação entre o zika em gestantes e a microcefalia nos bebês. Gómez diz acreditar na associação a partir dos dados brasileiros, mas critica o monitoramento do vírus zika no Brasil, que julga ser "crítico".

"Há fortes limitações em relação ao denominador. Não está muito claro qual foi a população afetada", diz. Para ele, isso dificulta projeções.

Ele diz que o Brasil correu atrás dos dados de zika depois da epidemia. Já a Colômbia, cuja população é de 48 milhões de pessoas (um quarto da brasileira), fez essa vigilância prospectivamente, porque a epidemia chegou depois no país. O Brasil identificou a presença do zika pela primeira vez em abril de 2015. Na Colômbia, ela foi identificada em outubro.

A notificação passou a ser compulsória no Brasil há duas semanas.

"A Colômbia teve uma certa vantagem, se é que se pode falar em vantagem quando se trata de receber uma epidemia, porque quando ela começou lá, eles já sabiam que a situação poderia ser grave. Foi diferente do que aconteceu no Brasil", afirma Cláudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

No começo, explica ele, o que se sabia sobre o zika era que se tratava de uma doença leve, sem complicações e com raras ocorrências de casos de síndrome de Guillain-Barré. "Não havia razão para fazer notificação universal da doença do vírus zika, mas apenas monitorar a expansão geográfica da doença."

Para Alexandre Chiavegatto Filho, economista e professor de estatísticas de saúde da USP, é acertada a decisão de tornar a notificação de casos de zika obrigatória só recentemente. "Se colocássemos todas as doenças conhecidas na lista [de notificação] seria criada uma carga ao profissional da saúde que o impediria de fazer o seu trabalho."

Por enquanto, o ministério trabalha com estimativas de que de 500 mil a 1,5 milhão de pessoas tiveram zika no ano passado. Até agora, no Brasil, há 641 casos confirmados de microcefalia causados por um agente infeccioso, que pode incluir o zika.

Já outro país vizinho, a Venezuela, teria 5.221 casos suspeitos de zika e três mortes causadas pelo vírus, segundo anúncio do presidente Nicolás Maduro em fevereiro.

Números não oficiais, porém, calculam que o vírus já atingiu 572 mil dos cerca de 30 milhões de habitantes do país. As mortes teriam sido 22, causadas por síndrome de Guillain-Barré, segundo José Oletta, ministro da Saúde do país na gestão de Rafael Caldera (1994-99). Não há dados sobre microcefalia.

Oletta diz que há dificuldade de acesso ao tratamento para Guillain-Barré. "A situação toda é uma negação de direitos humanos", afirma.

 

Fonte: Folha de São Paulo.


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