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ALANAC - Notícias do Setor

Zika realmente causa microcefalia?

01 de Março de 2016

Por: Alexandre Chiavegatto Filho

Fernando Pessoa, incorporando Álvaro de Campos, começa o poema "Pecado Original" com aquela que talvez seja a grande questão da humanidade: "Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? / Será essa, se alguém a escrever, / A verdadeira história da humanidade".

História e literatura gostam de especular sobre o que poderia ter sido, mas em nenhuma área essa questão é tão importante quanto na ciência. Para estabelecer cientificamente se um problema causa o outro é necessário pensar em termos contrafactuais, ou seja, o que teria acontecido se o tal problema não existisse.

Por exemplo, uma mulher contraiu o vírus da zika e teve um filho com microcefalia. Não tivesse sido originalmente exposta ao vírus, o bebê teria nascido com a má-formação? Se a resposta for não, temos estabelecida uma relação causal.

Isso é a teoria, mas a prática é muito mais difícil. No exemplo, seria necessário que a mesma mulher tivesse e não tivesse contraído zika no mesmo momento. Essa impossibilidade empírica incentiva cientistas a desenvolverem estratégias para se aproximarem ao máximo da análise do contrafactual.

A mais adequada é a elaboração de um estudo clínico randomizado, muito utilizado para estudar a eficácia de medicamentos. No nosso caso, teríamos uma amostra de mulheres grávidas. Uma parte seria sorteada para ser infectada pelo vírus da zika; o restante, não.

O sorteio aqui é muito importante porque evita o viés de autosseleção, ou seja, que as características das mulheres influenciem o risco de serem infectadas. Isso é fundamental, já que algumas características, conhecidas como "variáveis de confusão", podem influenciar ao mesmo tempo o risco de infecção e o de ter um filho com microcefalia, criando uma associação espúria que mascara a causalidade.

Resolvemos o problema empírico, mas agora criamos um problema ético: não é aceitável infectar mulheres grávidas com um vírus potencialmente causador de microcefalia. A solução para o nosso problema é utilizar um experimento natural, que tenha de certo modo realizado um "sorteio" das mulheres infectadas sem a nossa intervenção.

O mais promissor para o nosso caso é o uso da randomização mendeliana, na qual a "loteria" genética serve como um sorteio. Caso haja uma associação entre um fator genético unicamente associado ao vírus da zika (um gene que, por exemplo, dê imunidade ao portador) e uma variação no risco de microcefalia, será possível estabelecer um caminho causal entre zika e a má-formação.

Os estudos divulgados até agora testaram apenas a possível associação entre ambos, e os próprios autores desses trabalhos se recusam a falar em causa.

Apesar disso, o governo afirma categoricamente que a zika causa microcefalia. Pode ser que o Ministério da Saúde tenha chutado bem, que o vírus de fato provoque microcefalia, mas não deixa de ser um chute sem base científica sólida.

Essa conclusão precipitada pode ter ocasionado a perda de bilhões de reais em turismo. Talvez milhares de vidas tenham deixado de ser concebidas. Há ainda relatos preocupantes de mães infectadas por zika que, mesmo sem diagnóstico de microcefalia, abortaram seus bebês.

Por mais que o governo insista na sua posição inicial, é importante deixar claro que sem contrafactuais não conseguiremos estabelecer uma relação causal definitiva entre zika e microcefalia. Infelizmente, isso ainda pode levar algum tempo.

Até lá, pode ser constatada uma associação cada vez mais forte entre os dois problemas, sem, no entanto, que se possa estabelecer uma relação de fato causal entre eles.

Essa grande descoberta ficará nas mãos de quem conseguir escrever a história do que poderia ter sido.

 

Fonte: Folha de São Paulo.


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