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ALANAC - Notícias do Setor

Estudo associa aparecimento de casos de síndrome de Guillain-Barré à zika

01 de Março de 2016

Por: Gabriel Alves

Foi publicado nesta segunda (29) o estudo que melhor relaciona, até agora, a infecção pelo vírus da zika com a síndrome de Guillain-Barré.

No Brasil, há atualmente uma média de cinco novos casos por dia, um número 30% maior do que em 2014.

Os dados do estudo são da Polinésia Francesa, referentes ao surto de zika que aconteceu entre outubro de 2013 e abril de 2014. No artigo, publicado na revista médica inglesa "The Lancet", os pesquisadores fizeram um estudo retrospectivo, ou seja, a partir dos casos da síndrome de Guillain-Barré entrevistaram os pacientes e buscaram entender como e quando foi a infecção.

A síndrome é causada por uma falha no sistema imunológico (que pode acontecer após uma infecção viral ou bacteriana) e causa perda dos movimentos, dos reflexos e da sensibilidade. Os sintomas progridem por cerca de quatro semanas antes de começarem a melhorar. Cerca de 20% dos pacientes ficam com sequelas e 5% morrem. A doença afeta preferencialmente homens e tem mais chance de aparecer conforme a idade aumenta.

Para o estudo, foram recrutados 42 pacientes que apresentaram a síndrome de Guillain-Barré. Todos tinham anticorpos capazes de atacar o vírus da zika –um bom indício de que teriam sido infectados– e 88% ficaram doentes aproximadamente seis dias antes do aparecimento dos sintomas, reforçando a ligação com a virose.

Para efeitos de comparação, os pesquisadores recrutaram pacientes que tiveram zika, mas que não apresentaram sintomas neurológicos, e também pessoas saudáveis com idades e hábitos semelhantes aos dos pacientes que tiveram a síndrome.

Os cientistas notaram que, na média, os casos da de Guillain-Barré ligadas à zika são mais breves e menos agressivos. Dos 42 pacientes do estudo, nenhum morreu.

Um dos motivos para reafirmar o vínculo de causalidade entre zika e Guillain-Barré é a característica do perfil do aparecimento de novos casos da síndrome. Na Polinésia Francesa, o pico de casos de Guillain-Barré ocorreu três semanas depois do pico de casos de zika, o tempo compatível que leva para a síndrome aparecer após a infecção.

CRÍTICA

O problema do estudo é a margem de incerteza que ele carrega. Por analisar no presente pessoas que tiveram a infecção no passado, não foi possível detectar o vírus pelo teste molecular conhecido com PCR, que identifica o material genético do vírus no sangue do paciente.

A alternativa foi usar a imprecisa detecção de anticorpos, cujo resultado positivo pode, muitas vezes, querer dizer que houve infecção por dengue e não por zika. De qualquer forma, os autores não hesitam em afirmar que o zika deve, desde já, ser incluído na lista dos possíveis causadores da síndrome.

A evidência não é a mais forte possível, mas, "na falta de outra informação, essa é a melhor que nós temos", afirma o professor de virologia da Faculdade de Medicina de Rio Preto Maurício Nogueira, que está estudando o surto de zika no país.

Em busca dos melhores dados possíveis, Nogueira está acompanhando pacientes que estão sendo diagnosticados (via PCR) com o vírus da zika. É um estudo prospectivo, no qual os pacientes serão seguidos por meses ou anos e que vai poder confirmar, com certeza absoluta, o vínculo epidemiológico entre zika e microcefalia e entre zika e síndrome de Guillain-Barré.

Estima-se que a doença neurológica afete 24 pessoas a cada 100 mil infecções por zika, ou seja, a complicação é bastante rara. Mas, tratando-se de uma população grande como a brasileira, os novos casos, mesmo com essa baixa taxa, pode chegar aos milhares. O mesmo vale para outros países americanos.

Segundo os autores do estudo do "Lancet", realizado no Hospital Central da Polinésia Francesa, os países devem adequar suas unidades de tratamento intensivo para receber esses pacientes em um futuro próximo.

 

Fonte: Folha de São Paulo.


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