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ALANAC - Notícias do Setor

Firmas de genéricos da Índia investem pesado nos EUA

29 de Fevereiro de 2016

Por: Suryatapa Bhattacharya (Colaboração Silvana Mautone)

As farmacêuticas da Índia saíram às compras no ano passado para conquistar uma fatia maior do mercado de medicamentos genéricos dos Estados Unidos.

A tendência é motivada pela fiscalização mais rígida que os EUA estão fazendo nas fábricas dessas empresas na Índia, muitas das quais receberam avaliações negativas no quesito segurança, e pelo desejo das empresas de desenvolver e vender produtos mais sofisticados, como analgésicos potentes, que os reguladores americanos dizem que precisam ser fabricados nos EUA.

Em 2015, farmacêuticas da Índia investiram um total de US$ 1,5 bilhão em aquisições de empresas americanas, segundo a firma de dados Dealogic. Desde 2010, firmas indianas compraram ou concordaram em comprar 31 farmacêuticas americanas, segundo a Dealogic. Outras companhias da Índia estão construindo novas fábricas nos EUA.

 

"Essas são iniciativas muito ambiciosas para ir onde o mercado está", diz Dilip Shah, líder da Aliança Farmacêutica Indiana, um grupo do setor.

 

Em julho de 2015, a Lupin Pharmaceuticals Ltd., de Mumbai, fechou a compra de duas empresas de genéricos do Estado americano de Nova Jersey por um total de quase US$ 900 milhões. Os negócios vão possibilitar à Lupin produzir drogas mais rigidamente reguladas nos EUA, incluindo calmantes e narcóticos, além de produtos para tratamentos dermatológicos.

Entre os medicamentos produzidos agora pelas duas empresas de Nova Jersey, a Gavis Pharmaceuticals LLC e a Novel Laboratories Inc., estão versões genéricas do remédio para dor crônica OxyContin e da Ritalina, um estimulante usado para o tratamento do déficit de atenção com hiperatividade.

O diretor­ gerente da Lupin, Nilesh Gupta, diz que a empresa começou a buscar aquisições nos EUA porque sua fabricação estava muito concentrada na Índia. "Queríamos fazer substâncias controladas, manufatura local, essas são áreas amplas nas quais queríamos entrar."

O mercado de medicamentos genéricos dos EUA deve crescer a uma média anual de 10% e chegar a US$ 71,9 bilhões em 2018, segundo a consultoria RNCOS, à medida que uma participação mais ampla dos americanos em planos de saúde incentiva o uso de remédios genéricos. As empresas indianas tinham uma fatia de 19% desse mercado em 2014, comparado com 13% em 2010, segundo a Organização dos Produtores Farmacêuticos da Índia, um grupo setorial.

Os EUA, onde as margens de lucros com a venda de remédios são maiores, estão se tornando cada vez mais atraentes, afirmam as farmacêuticas indianas, ao mesmo tempo em que o mercado indiano fica mais competitivo.

A Lupin e outras farmacêuticas da Índia afirmam que fabricar nos EUA lhes dá um acesso maior aos engenheiros, equipamentos e instalações de que precisam para produzir remédios de manufatura mais complexa.

Os custos da mão de obra são menores na Índia, o que, durante anos, era uma vantagem para as fabricantes de genéricos do país no mercado mundial de medicamentos básicos. Mas executivos indianos dizem que os trabalhadores e fábricas do país não estão preparados para produzir medicamentos injetáveis ou administrados via inalação nem remédios sofisticados contra o câncer.

Em fevereiro, a indiana Cipla Ltd. comprou duas farmacêuticas americanas por US$ 550 milhões. Em novembro do ano passado, a maior fabricante de remédios da Índia por vendas, a Sun Pharmaceutical Industries Ltd., completou a aquisição, por US$ 57 milhões, da Insite Vision Inc., que é sediada na Califórnia e produz medicamentos usados após cirurgias oftalmológicas, de acordo com a Dealogic.

No ano passado, a FDA, agência que regula alimentos e remédios nos EUA, proibiu as importações de produtos de oito farmacêuticas indianas e fez advertências severas a outras por causa de supostos problemas em suas fábricas e procedimentos de testes. A intervenção da FDA provocou perdas de até US$ 800 milhões nas vendas anuais das farmacêuticas indianas nos últimos três anos, dizem analistas.

Em dezembro de 2015, a Sun Pharmaceutical Industries recebeu uma carta de advertência da FDA dizendo que a agência não estava satisfeita com os planos da farmacêutica para resolver problemas de qualidade. Se esses problemas não forem resolvidos, os remédios feitos em algumas fábricas da Sun Pharma podem ter sua venda proibida nos EUA, dizem analistas.

O diretor­ gerente da Sun Pharma, Dilip Shanghvi, disse na época que a empresa "continuará cooperando" com os reguladores dos EUA e "tomando as medidas adicionais necessárias" para atender às preocupações da FDA.

Em 2010, A Lupin contratou consultores e modernizou suas fábricas após a FDA apontar problemas em uma de suas instalações na Índia, afirmou a empresa.

A Glenmark Pharmaceuticals decidiu que uma das melhores maneiras para garantir que seus remédios não sejam banidos nos EUA seria se estabelecer na Carolina do Norte. A empresa está gastando aproximadamente US$ 200 milhões para construir fábricas no Estado americano, diz um executivo da Glenmark a par dos planos. Uma das fábricas vai produzir seringas com remédios usados no tratamento do câncer, doenças autoimunes e outras doenças. "A fabricação nos EUA será mais cara que na Índia", diz Glenn Saldanha, diretor­gerente da Glenmark. Mas ele diz acreditar que estar nos EUA permitirá à empresa fazer produtos mais sofisticados de uma forma mais consistente. "Essa é a troca", diz.

Algumas dessas empresas também estão presentes no mercado brasileiro de genéricos. A Lupin, por exemplo, estreou no país em maio do ano passado, ao fechar a compra da Medquímica Indústria Farmacêutica S.A. O valor pago não foi divulgado. A Sun passou a ter uma subsidiária no Brasil após comprar a TKS Farmacêutica Ltda., alguns anos atrás.

Segundo a PróGenéricos, entidade que representa o setor, a fatia dos genéricos no mercado total brasileiro de medicamentos subiu de 27,64% em 2014 para 28,88% no ano passado. As vendas somaram R$ 5,9 bilhões, 11,75% mais altas que em 2014.

 

Fonte: Valor Econômico.


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