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ALANAC - Notícias do Setor

Ideias fora de série

29 de Fevereiro de 2016

Por: Domingos Zaparolli

Mercados voláteis e investidores ariscos não formam o melhor cenário para empreendedores novatos em busca de recursos. Mesmo assim, 2016 pode ser um bom ano para as startups brasileiras. O BNDES lançou este mês o Criatec III, com R$ 200 milhões para empreendimentos inovadores. O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) também planeja anunciar os editais de dois programas de subvenções ainda neste semestre.

No setor privado, empresas tradicionais se aproximam de startups em busca de soluções inovadoras e econômicas para seus negócios, como demonstra o Movimento 100 Open Startups, que conecta empreendedores a 50 grandes grupos empresariais.

O ministro Celso Pansera, do MCTI, informa que até o fim de março estarão concluídos os estudos para o lançamento de um novo edital do programa Start­Up Brasil. Ainda falta definir o total de recursos que serão investidos e empreendimentos beneficiados. "No mínimo, apoiaremos cem projetos por um ano com R$ 200 mil cada um", diz.

O Start-­Up Brasil é gerido pela Softex e conta com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDTC). Foi lançado em 2013 e já apoiou 183 empreendimentos de 15 segmentos de negócios. As startups selecionadas são abrigadas por aceleradoras, que fornecem o suporte de mentores e investidores para o desenvolvimento dos produtos e serviços. "Já investimos R$ 27 milhões no programa, que geraram outros R$ 57 milhões de investimentos privados", diz Pansera.

O ministro informa que também no segundo trimestre do ano será lançado o primeiro edital do programa Finep Startup, que estava inicialmente previsto para novembro de 2015. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), na ocasião, chegou a anunciar investimentos de R$ 80 milhões em três anos, sendo que cada startup selecionada poderia receber aportes de até R$ 1 milhão. Pansera, porém, diz que a estrutura e os valores do programa estão sendo reavaliados.

A terceira fase do Fundo de Capital Semente (Criatec III) será gerida pela Inseed Investimentos. Nas duas primeiras fases os aportes somam R$ 286 milhões. Nessa nova etapa os R$ 200 milhões previstos têm recursos do BNDES com captações entre outras agências públicas de fomento e de investidores privados. Os valores aportados nas selecionadas para o processo de aceleração vão de R$ 1,5 milhão a R$ 10 milhões. As candidatas devem ter faturamento líquido de até R$ 12 milhões.

Gustavo Junqueira, diretor da Inseed, diz que a expectativa é avaliar 2,5 mil negócios e chegar a 36 escolhidas. Os investimentos nas empresas ocorrerão ao longo de quatro anos e o apoio das aceleradoras no desenvolvimento do negócio por mais seis anos. Ao fim de dez anos é realizado o desinvestimento.

A quantidade de startups ativas no Brasil cresceu significativamente nos últimos anos. Saltou de 480, em 2013, para 4.151 em dezembro de 2015 (760%), segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups).

Diante desse vigor, a destinação de recursos públicos para esses empreendimentos gera controvérsia. Guilherme Junqueira, gerente executivo da associação, diz que o apoio estatal é necessário. "É uma faísca que desperta a atenção do investidor privado", diz. Segundo Junqueira, 25% das startups criadas no país morrem no primeiro ano de atividade. Falta de capital e mentoria estão entre as principais dificuldades.

O consultor Yuri Gitahy, fundador da Aceleradora, diz que investir em startups não deveria ser um trabalho do governo. "O que esses empreendimentos precisam é de receita. Existem excelentes produtos e serviços brasileiros que reduziriam custos e trariam mais produtividade ao setor público, mas a burocracia, as exigências nas licitações, atrapalham os negócios das startups com o governo."

O investidor anjo Bruno Rondani, da IVP, diz que a conjuntura econômica afeta sim a disposição de assumir riscos, o que deve impactar a oferta de capital privado para as startups. No entanto, ele vê um crescente interesse de grandes empresas em apoiar esses empreendimentos com recursos não monetários, por meio de informações e sugestões para a validação de ideias e gerando receita, com a compra de produtos e serviços.

"A crise abriu os olhos dos empresários para duas realidades. A primeira é que eles precisam de alternativas mais econômicas para aquilo que já fazem. A segunda é que precisam inovar e buscar novos mercados. As startups podem ajudar nas duas situações."

Rondani é mentor do Movimento 100 Open Startups, lançado no fim de 2014 com o objetivo de fazer uma ponte entre empresas estabelecidas e startups e gerar sinergias. No início eram 40 empresas, hoje são 50, grupos como HP, IBM, 3M, J&J, Natura, Abbott, Estácio, Algar e Fleury. "Temos outras 15 grandes empresas que nos procuraram e estão em fase de adesão", diz o executivo.

Do outro lado, o movimento reúne por ano cem startups avaliadas como atraentes e interessantes do ponto de vista de grandes empresas com interesse em inovação aberta. No ano passado, 1.500 propostas foram analisadas. Executivos de grandes empresas, investidores e profissionais de mercado avaliam e fazem o feedback aos empreendedores, que podem assim refinar suas propostas. Os selecionados participam de um evento de relacionamento no Open Innovation Week, que neste ano ocorreu de 23 a 25 de fevereiro, em São Paulo.

A startup Lean Survey participou da primeira edição do 100 Open em 2015, menos de um ano após sua criação por dois alunos de engenharia da Universidade de São Paulo, Alessandro Andrade e Fernando Salaroli. A proposta é fazer pesquisas de mercado presenciais utilizando tecnologia mobile e pesquisadores "crowdsourcing". Hoje tem 10 mil cadastrados em 26 Estados e no Distrito Federal.

Os pesquisadores se cadastram pela internet e são treinados, em poucas horas, utilizando seus smartphones e computadores. Os dados levantados pelos pesquisadores são lançados on­line no sistema de coleta de dados. Por meio de GPS, é possível saber onde o entrevistador estava e quanto tempo durou cada entrevista. Todos os depoimentos são gravados, o que permite uma auditoria remota do conteúdo.

Andrade diz que ele e seu sócio chegaram a esse formato após conversas com potenciais clientes, de quem ouviram inúmeras queixas em relação à qualidade e ao custo das pesquisas disponíveis no mercado. "Entregamos os resultados na metade do tempo das empresas tradicionais e por um terço do custo", diz.

A Lean Survey levantou R$ 300 mil em aportes do fundo de investimento IVP, que tem Bruno Rondani entre os investidores, e planeja captar outros R$ 400 mil até abril, com outro investidor anjo com o qual já iniciou conversas. Em 2015 a startup faturou R$ 200 mil. Em 2016, os contratos negociados já garantem R$ 500 mil.

 

Fonte: Valor Econômico.


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