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ALANAC - Notícias do Setor

Ambiente de negócios piorou no Brasil, diz conselheiro de farmacêutica

16 de Novembro de 2015

Por: LUCAS VETTORAZZO 
 
Para o presidente do conselho familiar da Merck, farmacêutica alemã com 92 anos no Brasil, Frank Stangenberg-Haverkamp, o ambiente de negócios está "mais difícil" no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff em razão de uma crise que foi "feita em casa".
 
Haverkamp, que preside o conselho que representa a família na administração da empresa fundada em 1669, afirma que, se houver provas de que a presidente está envolvida em esquema de corrupção, ela deve sofrer impeachment.
 
"Eu não me importaria se é ruim ou não para o país. O fato é que, se houver corrupção, ela deve sofrer impeachment", disse à Folha.
 
O ambiente de negócios, disse ele, não piora com uma possível saída da presidente, assim como não deve haver fuga de capital estrangeiro do país. Independentemente do mau momento, ele diz acreditar que "o Brasil é um país grande, rico em recursos e estratégico para as empresas estrangeiras".
 
Ele lembra que havia dúvidas quanto à capacidade da presidente à época de sua eleição. "Hoje vejo que eram dúvidas justificadas."
 
A Merck, que fabrica no país medicamentos como o Floratil, Euthyrox e Glifage, iniciou no ano passado a expansão de sua fábrica em Jacarepaguá, no Rio, com investimento de R$ 42 milhões.
 
Recentemente, fechou acordo com a Fiocruz para o desenvolvimento local do medicamento Rebif, para tratamento de esclerose múltipla e que já é fornecido gratuitamente à população, por meio de subsídio federal.
 
*
 
Folha - O Brasil está com taxas de desemprego altas, o PIB deve cair neste ano, as famílias estão endividadas e a renda tem diminuído. As pessoas irão consumir menos remédios por causa da crise?
 
Frank Stangenberg-Haverkamp - Não acredito nisso. A elasticidade da demanda por medicamentos é extremamente alta. Se você não se sente bem, você busca um medicamento, independentemente de ter dinheiro ou não. É mais uma questão de governo, na realidade. Que caminhos o governo está tomando para melhorar a assistência médica da população? É um desafio mundial.
 
O governo está fazendo a parte dele?
 
Provavelmente poderia fazer mais. Há problemas em todos os países. Até na Alemanha existe essa lacuna, em que os mais ricos têm acesso a medicamentos e tratamentos de saúde top de linha. Quanto mais para baixo nessa cadeia, mais difícil fica.
 
Alguns economistas, como Paul Krugman, veem certo exagero na forma como as pessoas enxergam a crise no Brasil. O que o sr., como executivo de multinacional, acha?
 
Eu não vivo aqui e só sei o que os meus colegas me contam e o que eu leio nos jornais europeus. Penso que essa crise foi feita em casa.
 
Como estão os negócios da Merck no Brasil nesta crise?
 
[O entrevistado pede ao presidente da Merck Brasil, Guilherme Maradei, que responda:] Acho que o principal impacto está relacionado às compras governamentais. Temos tido atrasos e cancelamentos de pedidos. Na parte privada, vemos uma competição mais agressiva por preço, com empresas locais e fabricantes de genéricos dando maiores descontos. Isso, de fato, afeta nosso crescimento, mas estamos fortes para crescer acima do mercado.
 
A crise econômica anda ao lado da crise política. Um possível impeachment da presidente Dilma Rousseff seria ruim para a economia do país?
 
Para ser honesto, eu não me importaria se é ruim ou não. O fato é que, se houver [provas de] corrupção, ela deveria sofrer impeachment. Corrupção é um dos maiores entraves para o desenvolvimento dos países.
 
Mas ainda não há provas de que a presidente esteja envolvida em corrupção.
 
Sim, o ponto é esse. Nada nunca é provado, e, mesmo que se consigam provas, haverá sempre umas cem pessoas tentando livrar-se delas.
 
O ambiente de negócios piorou com esse escândalo?
 
Não está ajudando. A confiança das empresas estrangeiras em investir no Brasil mais adiante não está aumentando. As empresas estão pensando: o que vai acontecer com o meu dinheiro nos próximos 5, 10, 15 anos?
 
A Merck também?
 
Independentemente disso, estamos confortáveis aqui, investindo e acreditando na estabilização e no desenvolvimento no longo prazo.
 
Haveria fuga de capital estrangeiro do país se a presidente sofresse impeachment?
 
Não acredito. O Brasil é muito grande, rico em recursos naturais e recursos humanos. É um país estratégico para empresas estrangeiras.
 
Como está a imagem do Brasil no exterior?
 
Já foi melhor. Quando a sua presidente foi eleita, as pessoas estavam bem curiosas sobre o que ela faria para governar um país tão grande, dado que foi uma revolucionária. Sempre houve dúvidas quanto a sua capacidade. Acho que hoje as dúvidas são justificadas.
 
O senhor, então, não está satisfeito com a presidente?
 
Você está? [risos] Não cabe a mim essa avaliação, não sou brasileiro, não elejo ninguém. O que posso dizer é que o ambiente de negócios está muito mais difícil, particularmente no segundo mandato da presidente. No primeiro mandato, acredito que ela tenha se beneficiado das boas coisas que Lula deixou. Eu encontrei com Lula uma vez em Santiago (Chile)...
 
O que achou dele?
 
É um homem baixinho [risos]. Na verdade ele é uma pessoa muito agradável e aberta. Ajudou muito a recriar o Brasil, levando o país à frente. Ela [Dilma] provavelmente se beneficiou disso no primeiro mandato, mas, no segundo, o efeito disso que chamamos educadamente de "não política" está se mostrando problemático.
 
O senhor já esteve com a presidente Dilma?
 
Não. Na África, por exemplo, o ministro da Saúde, o secretário de Estado, o primeiro-ministro ou o presidente recebem os homens de negócios estrangeiros que são grandes investidores no país. Na América do Sul, normalmente não. É algo que eles precisavam começar a considerar, porque é uma oportunidade real de ver o que eles estão fazendo e o que querem de nós.
 
O sr. ouviu falar da suposta pílula de combate ao câncer, manipulada por um laboratório da USP? O que acha disso?
 
Sempre tem uma pílula anticâncer surgindo ao redor do mundo. Assim como existem esses medicamentos que prometem, por exemplo, curar a queda de cabelo. Olhe para mim [e apontou para a própria cabeça, rindo]. Para chegar a uma prova científica, você precisa de, no mínimo, cinco, dez anos de testes. Eu não gastaria nem um real que seja com essas pílulas.
 
Porque esse tipo de medicamento faz tanto sucesso?
 
É preciso ter cuidado. Todos querem uma pílula que combata o câncer. Mas, do ponto de vista da indústria, acredite, se houvesse algo do tipo, todas as grandes farmacêuticas estariam correndo atrás.
 
A Merck tem pesquisas para encontrar a sua própria "pílula anticâncer"?
 
Oncologia é nossa principal área de pesquisa, somos muito fortes nisso. A meta seria erradicar o câncer, mas, honestamente, se eu dissesse que estamos perto, seria errado, assim como seria errado se eu dissesse que estamos muito, muito distantes. Honestamente, a resposta seria: eu não sei.
 
Em que estágio estão as pesquisas?
 
Temos em desenvolvimento bons produtos que chegarão ao mercado daqui a dois ou três anos. Mas o que conseguimos até agora é manipular sintomas, o que não significa nada em termos de chegarmos a um medicamento que elimine o câncer.
 
Nossos medicamentos atuam para prolongar a vida das pessoas doentes. Fizemos grandes progressos nos últimos 20 anos, mas não estamos perto da cura. Nenhuma empresa está.
 
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O CONSELHEIRO E O LABORATÓRIO
Frank Stanberg-Haverkamp
 
> Origem: Alemanha, 1949
 
> Formação: doutorado em história econômica
 
> Cargos: presidente do conselho familiar e do conselho-executivo da Merck e vice-presidente do conselho de parceiros da E.Merck KG, controlada da holding de capital aberto na Alemanha
 
Merck/2014
 
> Faturamento: € 11,4 bi (R$ 47,3 bi)
 
> Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização): € 3,4 bi (R$ 14,11 bi)
 
> Áreas de atuação: saúde, ciências da vida e materiais especiais
 
> Peso da América Latina nas vendas globais: 12%
 
Fonte: Folha de São Paulo 


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