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ALANAC - Notícias do Setor

O primeiro remédio contra o envelhecimento

05 de Outubro de 2015

Por: Fernando Reinach 
 
O primeiro ensaio clínico planejado para testar uma droga capaz de retardar o envelhecimento vai começar. Se o resultado for positivo, não vamos precisar esperar anos para que o remédio chegue às farmácias. Ele já está disponível e é barato. Eu já sou usuário faz dez anos.
 
Drogas que retardam o envelhecimento habitam os sonhos da humanidade. Infelizmente, ainda não foram descobertas. Grande parte do que é consumido não passa de puro charlatanismo ou não foi testado de forma rigorosa.
 
Demonstrar que uma droga retarda o envelhecimento não é fácil. E a dificuldade começa pela definição do que é envelhecimento e como medir esse fenômeno. O envelhecimento é um processo natural, não uma doença. É o cabelo branco, o enfraquecimento dos músculos e a flacidez da pele. Mas também se caracteriza pelo aparecimento de várias doenças associadas ao passar do tempo. Doenças cardíacas, diabete, doenças neurológicas e inúmeras outras patologias decorrem em parte do envelhecimento de nossos órgãos. No final da vida, uma dessas patologias vai causar a morte, mas a maioria das pessoas idosas convive com mais de uma dessas doenças. 
 
Dada essa complexidade, como medir o efeito de uma droga sobre o envelhecimento?
 
Os cientistas estão acostumados a medir o efeito de uma droga sobre um parâmetro único. 
 
Se desconfiamos que uma droga pode diminuir a pressão arterial, dividimos um grupo de pacientes em dois subgrupos, ministramos a droga para um grupo e um placebo para o outro. Se a pressão do grupo que recebeu a droga diminuir, concluímos que ela funciona. Mas no caso do envelhecimento a coisa se complica. Uma possibilidade é medir quantos anos a mais o grupo que recebeu a droga sobrevive. Mas esse protocolo tem vários problemas. Demora muito, e não leva em conta a qualidade de vida dos últimos anos. Será que uma droga que aumenta a vida em dois anos, mas torna esses últimos anos miseráveis é melhor que o placebo?
 
O que os cientistas decidiram é medir o retardo no aparecimento das comorbidades associadas ao envelhecimento. Em outras palavras, vão tentar medir se a droga retarda o aparecimento de um conjunto de doenças associadas ao envelhecimento. Por esse critério, se a droga funcionar, essas doenças apareceriam mais tarde e o tempo em que convivemos com elas seria diminuído, aumentando a qualidade de vida ao mesmo tempo em que retarda a morte.
 
Definidos esses critérios, os cientistas passaram anos escolhendo drogas que poderiam ser testadas em seres humanos. Duas se mostraram promissoras. Uma é a Rapamicina, um imunossupressor, outra é a Metformina, uma droga usada para tratar diabete. Como a Rapamicina provoca efeitos colaterais, foi decidido que o primeiro teste em larga escala, com mais de 3 mil idosos, será feito com a Metformina.
 
A grande vantagem da Metformina é que ela é extremamente bem conhecida, tem sido usada para tratar diabete desde 1960 e praticamente não tem efeitos colaterais. Milhões de pessoas já tomam Metformina todos os dias. No Brasil ela é muito barata e faz parte do programa Farmácia Popular. Se for demonstrado que ela retarda o envelhecimento, todos podemos passar a utilizá-la imediatamente.
 
Mas o fato de ser uma droga sem patente é também uma desvantagem. Ninguém quer gastar as centenas de milhões de dólares necessários para conduzir os testes. E a razão é simples. Se ela passar nos testes, nenhuma indústria farmacêutica vai ter lucro com sua comercialização. E sem a perspectiva de lucro, quem vai se arriscar a investir centenas de milhões em um teste que pode não confirmar essa propriedade da Metformina?
 
O fato é que os testes ainda não começaram por falta de dinheiro. Algumas fundações estão se organizando para pagar pelos testes e o governo dos EUA provavelmente vai ajudar. Vai ser muito interessante observar como esse projeto vai evoluir ao longo dos anos. Será que nossa sociedade tem mecanismos capazes de financiar a busca pelo sonho da longevidade abrindo mão do lucro? E se tiver, quão eficientes serão esses mecanismos? No mínimo, esse ensaio clínico vai ser um experimento socioeconômico interessante.
 
Fonte: O Estado de São Paulo 


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