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ALANAC - Notícias do Setor

Peso da revenda de bens no faturamento industrial chega a 12%

23 de Setembro de 2014

Por: Denise Neumann, Vanessa Jurgenfeld e Marta Watanabe

Todos os meses, empresas grandes e pequenas do setor têxtil, como Lepper, Cativa, RC Conti, entre tantas outras, recebem peças de vestuário ou de cama, mesa e banho prontas, embaladas, com etiqueta, vindas da China. Sem pregar nenhum botão, esses itens são vendidos no varejo brasileiro e elevam o faturamento das empresas. Essa estratégia, muito conhecida nas têxteis, tem se espalhado por diferentes setores da indústria.

Segundo dados obtidos a partir da Pesquisa Industrial Anual (PIA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a revenda de mercadorias produzidas em fábricas de terceiros (no Brasil ou fora) foi ampliada e ganhou corpo em setores como medicamentos, papel e celulose, cimento, máquinas, bebidas, entre outros. Atualmente, R$ 12 em cada R$ 100 faturados pela indústria de transformação não foram produzidos dentro da fábrica que vendeu o bem. Em 2007, o peso da receita obtida com revenda de mercadorias (nacionais ou importadas) na composição do faturamento da indústria era de 7%.

A revenda de mercadorias que a indústria não produziu envolve duas estratégias distintas. Uma é mais espalhada e reflete a importação de um bem que pode ser classificado de "commodity industrial", pois o mesmo item pode ser importado - e revendido - por qualquer empresa do setor. Aqui, a busca é pelo menor preço. É a chamada importação de "prateleira".

A segunda estratégia envolve maior participação da indústria brasileira. Em alguns casos, o fabricante local desenvolveu o produto no Brasil e procurou um parceiro no exterior ou mesmo no país para produzir a mercadoria a um custo menor; em outros, a empresa faz parceria para trazer uma mercadoria ainda não produzida no Brasil - seja porque a escala é pequena, seja porque existe proteção de patente. Esse último modelo é típico do setor farmacêutico, onde a revenda de medicamentos não produzidos na fábrica local já alcança 28% do faturamento total, maior percentual entre todos os setores, segundo os dados da PIA de 2012.

O setor têxtil, pioneiro na importação de peças prontas para revenda no mercado local como forma de concorrer com o próprio importado e assim sobreviver, é um exemplo da produção contratada sob supervisão e design brasileiros. Na Lepper, do setor de cama, mesa e banho, a produção feita na China representou 20% do faturamento em 2013. Maria Regina Loyola Alves, presidente da empresa, conta que a criação das peças produzidas na Ásia está sendo feita no Brasil e é parte da estratégia de assegurar a lucratividade.

Na Cativa, empresa de vestuário sediada em Pomerode (SC), a criação e o desenvolvimento são feitos no Brasil. Depois, as coleções são enviadas para diversos fornecedores. Escolhido o melhor preço, começam a ser produzidas as primeiras amostras até que a mercadoria é entregue totalmente acabada, com etiqueta e tags da empresa brasileira, conta Gilmar Sprung, presidente da Cativa, que começou a importar da Ásia em 2004 e hoje mantém uma trading em Xangai.

Entre os 24 setores nos quais o IBGE divide a indústria de transformação, a ampliação da receita com revenda foi mais forte no setor de medicamentos. Ela passou de 12,3% em 2007 para 27,9% em 2012 - 126% mais. Os representantes do setor se dividem, um pouco, sobre o que é importado pronto. Para Pedro Bernardo, diretor de acesso da Interfarma (que reúne grandes laboratórios multinacionais), "antes você importava o produto inovador, mas isso se generalizou e chegou naqueles produtos de grande volume". Para Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos de São Paulo (que reúne multinacionais e laboratórios nacionais), a importação ainda está relacionada aos produtos de maior complexidade, cuja patente ainda não foi quebrada e não envolve os genéricos.

Embora se dividam sobre o tipo de medicamento importado pronto, os dois executivos concordam sobre as razões que levaram o setor a essa opção. Bernardo lista maior carga tributária, juro mais alto, real valorizado, falta de infraestrutura e muita burocracia. "Tudo isso dificulta a competição com outros países", diz ele. Por isso, conta, muitos medicamentos vêm prontos, já na caixa. "Mesmo empresas que fazem genéricos importam esses produtos de países onde o custo de produção é bem menor", pondera Bernardo.

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), a importação de medicamentos prontos e vacinas somou US$ 6,8 bilhões em 2012, alta de 94% em relação a 2007. Entre todas as farmacêuticas, foi a Abbot que mais aumentou a importação no período - 246%, chegando a US$ 586 milhões. Procurada, a empresa não se manifestou, porque separou os negócios e a importação de medicamentos passou, em 2014, para a Abbvie, sem fábrica no Brasil.

Mussolini aponta os mesmos problemas para a perda de competitividade do Brasil, mas acrescenta que o governo assumiu, no Sistema Único de Saúde (SUS), o uso de medicamentos mais complexos. "Esses produtos passaram a ser importados pelas empresas que os fabricam no exterior", diz ele, lembrando que alguns são alvo de tentativas de Parceria Público-Privada (PPP). A conta, diz, também sobe pela importação de vacinas, além do crescimento e da melhoria da renda terem elevado a demanda por remédios, exigindo maior importação de princípios ativos e de itens de alta complexidade.

A EMS é o maior fabricante nacional de medicamentos e o maior importador farmacêutico de capital local. Segundo a Secex, a empresa importou US$ 148 milhões em 2012, 66% mais que em 2007. Como todo setor, parte expressiva da importação é de princípios ativos, mas ela traz atualmente dois medicamentos prontos que não existem no mercado brasileiro.

De acordo com a empresa, "o volume de negócios resultante da comercialização de medicamentos importados ainda é pouco representativo, considerando o portfólio da EMS, que tem cerca de 2,5 mil apresentações de produtos". Segundo a companhia, "as parcerias com laboratórios internacionais e a importação de medicamentos representam um mecanismo adicional de inovação e são estratégicas ao seu portfólio".

Para José Ricardo Roriz, presidente de Abiplast - setor onde o peso da revenda dobrou desde 2007, embora ainda seja 5% da receita -, "a própria indústria acaba importando, o que a faz produzir menos, deixando a finalidade de indústria e indo para a comercialização." Ele acrescenta que "para a indústria é fácil fazer isso, porque ela conhece os mercados, os fornecedores e os canais de venda".

Roriz explica que a importação de produtos acabados não se restringe aos itens mais baratos, produzidos em larga escala em países asiáticos, como bacias e baldes de plástico. "Também há importação de um produto mais sofisticado, que serve como complementação de linhas ou é destinado a um nicho de mercado que está se desenvolvendo", diz ele. Ele exemplifica com o "stand-up pouch", embalagem flexível usada em alimentos e cosméticos. Esse produto é desenvolvido pela indústria local de embalagens segundo a necessidade do cliente, mas a fabricação é feita no exterior, com custo menor, e a embalagem chega pronta, muitas vezes estampada.

"As indústrias passaram a importar como estratégia de sobrevivência", diz Carlos Pastoriza, presidente da Abimaq, que reúne fabricantes de bens de capital. No setor de máquinas e equipamentos, a revenda de equipamentos soma quase 11% do faturamento do setor. "É o que eu chamo de processo de desindustrialização silencioso, no qual em vez das empresas quebrarem, embora algumas realmente fechem as portas, elas viram montadoras, maquiladoras ou, nos casos mais extremos, revendedoras." Segundo ele, há indústrias de máquinas que já fazem praticamente só revenda. "Elas mantêm a razão social como indústria, mas viraram revendedoras."

Fonte: Valor Econômico


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